quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Mel e tosse

A tosse é uma resposta reflexa, natural, do organismo a qualquer estimulação aos receptores nervosos (sensores) espalhados pelo trato respiratório (a partir dos brônquios até a laringe), também nos ouvidos e até no esôfago. Uma vez estimulado, esses receptores iniciam uma resposta parte voluntária, parte involuntária, na qual a saída do ar em alta velocidade tende a expulsar o agente irritante. A tosse pode ser carregada de secreção, também chamada de produtiva, ou sem formação de muco, tosse seca. 

Quando houver tosse produtiva, a medicação visa facilitar a eliminação da secreção, são os chamados expectorantes. Seu uso é questionável porque a ingestão suficiente de água, ou a inalação sem medicamento, parece produzir o mesmo efeito, sem as reações adversas. O uso de medicamentos para tosse seca visa inibir a resposta reflexa, para reduzir a irritação contínua do trato respiratório. A auscultação do pulmão pelo médico é importante para o diagnóstico correto do tipo de tosse. Em uma tosse aparentemente seca, a eliminação da secreção pode estar dificultada pela condição de desidratação.

O uso do mel é tradicional para o alívio da tosse irritativa, mas cada vez mais pesquisas têm demostrado sua eficácia. Acredita-se que o mel, a despeito de seus componentes anti-inflamatórios, antimicrobianos e antioxidantes, agiria aumentando a salivação e secreção de muco, aliviando, principalmente, a tosse seca. Outra possível explicação seria inibindo diretamente a estimulação dos receptores da tosse, impedindo o processo reflexo.

A composição do mel é muito ampla e variada dependente da florada onde foi produzida, porém o seu efeito antitussígeno parece não depender desses fatores. Todos os tipos de meles tem a mesma capacidade de diminuir a irritação provocada pela tosse, sendo superiores em efeito quando comparados aos medicamentos industrializados, principalmente a base de difenidramina, substância vendida sem receita médica.

Recomenda-se que o mel não seja usado em crianças com menos de um ano, porque a sua contaminação pela bactéria Clostridium botulinum ainda é comum no produto brasileiro (em torno de 7% das amostras comerciais). Essa bactéria é responsável pelo botulismo e as crianças nessa faixa etária são mais suscetíveis ao problema. É uma medida de segurança, indicada pela Organização Mundial de Saúde desde 2001, forte defensora do uso do mel no controle da tosse irritativa em crianças.

Se ainda tiver dúvidas, encaminhe sua dúvida para o Centro de Informações sobre Medicamentos (CIM) do curso de Farmácia da Unisantos. O contato pode ser pelo e-mail cim@unisantos.br ou por carta endereçada ao CIM, avenida Conselheiro Nébias, 300, 11015-002.

Prof. Dr Paulo Angelo Lorandi, farmacêutico pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas-USP (1981), especialista em Homeopatia pelo IHFL (1983) e em Saúde Coletiva pela Unisantos (1997), mestre (1997) e doutor (2002) em Educação (Currículo) pela PUCSP. Professor titular da UniSantos. Sócio proprietário da Farmácia Homeopática Dracena.

*Publicado originalmente pelo Jornal da Orla


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